sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

"El jardín olvidado"


Como é difícil despedir-se! Sempre que acabo de ler um livro, tenho essa sensação de despedida. Os contextos, os personagens, as histórias, tudo tão familiar... tanta cumplicidade, choros, risos. Compartilhar emoções criam vínculos tão fortes! Mas enfim, é a arte imitando a vida e vice-versa. Se na vida temos que passar página e tantas vezes fechar um “livro” para começar a escrever outro, com novas histórias, novos contextos e novos personagens, com certeza é menos doloroso fazer isso com a ficção. O livro é bastante interessante, está ambientado em três épocas distintas, com três protagonistas mulheres, e um conflito em cumum. Uma delas é uma autora de conto de fadas. E no livro são relatados alguns dos contos e como acontece com muitos poetas, compositores e autores, muitos dos contos são autobiográficos, o que vai dando pistas do desenrrolar da historia. Apesar de serem um pouco artificiosos, os contos de fadas resgatam alguns valores de uma maneira um pouco às avessas dos contos tradicionais. Portanto, deixo aquí alguns aperitivos do livro para podermos pensar: “... é bom poder ver sem ser vista. Ser observada é perigoso, porque determinados escrutinios é uma forma de roubo.” E uma das minhas partes prediletas do livro é quando Eliza contruía seu mundo e castelos, e ela era a princesa que esperava pelo principe, sua mãe lhe dizia que ela não devia esperar que alguém viesse resgatá-la. Uma mulher que espera que a resgatem, nunca salvará sí mesma. Porque ainda que você tenha os meios necessários, descubrirá que te falta valor. Devemos encontrar nosso valor, aprender a resgatar-nos e não esperar ou depender de ninguém! Concordam? Bem, fica aí minha dica de livro. Só não sei se está editado em português. “El jardín olvidado” de Kate Morton. É um best-seller, vale a pena ler! Bsitos!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Palavras do Grande Inquisidor.

Mais um textinho pra alimentar a alma... mtos bsitos desde o outro lado do "corguim"!
De tudo o que Dostoievski escreveu em Os Irmãos Karamazovi o que mais me impressionou foi o incidente do “Grande Inquisidor”. É assim. Jesus havia voltado à terra e andava incógnito entre as pessoas. Todos o reconheciam e sentiam o seu poder mas ninguém se atrevia a pronunciar o seu nome. Não era necessário. De longe o Grande Inquisidor o observa no meio da multidão e ordena que ele seja preso e trazido à sua presença. Então, diante do prisioneiro silencioso, ele profere a sua acusação.
Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível. Em lugar de pacificar a consciência humana de uma vez por todas mediante sólidos princípios, Tu lhe ofereceste o que há de mais estranho, de mais enigmático, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as forças humanas: a liberdade. Agiste, pois, como se não amasses os homens... Em vez de Te apoderares da liberdade humana, Tu a multiplicaste, e assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a eternidade...”
O Grande Inquisidor estava certo. Ele conhecia o coração dos homens. Os homens dizem amar a liberdade mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os homens são pássaros que amam o vôo mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o vôo e se trancam em gaiolas.
Não me recordo o nome do autor. Mas não importa. Textos valem por eles mesmos e não pelos nomes daqueles que os escreveram. Eu o reconto com as minhas palavras. 
"Era um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tudo tão bonito! Mas era uma belezxa que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores... Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aqui em baixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não haviam caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente. E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse aos seus companheiros, baixou seu vôo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que... Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles pssavam nas alturas, no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro. Aquelas visões dos patos em vôo, as memórias de alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que só se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo... Até que não foi mais possível agüentar a saudade. Resolveu voltar a ser o pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gorde demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, protegido pelas cercas e triste de não poder voar..." 
Acho que Fernando Pessoa se sentia um pouco como o pato. Pelo menos é o que sinto ao ler esse poema:
Ah, quanta vez, na hora suave
Em que me esqueço,
Vejo passar um vôo de ave
E me entristeço!

Porque é ligeiro, leve, certo
No ar de amavio?
Porque vai sob o céu aberto
Sem um desvio?

Porque ter asas simboliza
A liberdade
Que a vida nega e a alma precisa?
Sei que me invade
Um horror de me ter que cobre
Como uma cheia
Meu coração, e entorna sobre
Minh’alma alheia

Um desejo, não de ser ave,
Mas de poder
Ter não sei quê do vôo suave
Dentro do meu ser.”
Somos assim. Sonhamos o vôo mas tememos as alturas. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas da gaiola estivessem abertas. A verdade é o oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas ao vôo. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam  “Prisioneiro, dize-me, quem foi que fez essa inquebrável corrente que te prende?”, perguntava Tagore. “Fui eu”, disse o prisioneiro, “fui eu que forjei com cuidado, esta corrente...”
Deus dá a nostalgia pelo vôo.
As religiões constroem gaiolas.
As religiões são instituições que pretendem haver colocado numa gaiola o Pássaro Encantado. E não percebem que o pássaro que têm preso nas suas gaiolas de palavras é um pássaro empalhado. Era por isso que, no Antigo Testamento, era proibido falar o nome de Deus. Hoje, ao contrário, os religiosos não só falam o nome sagrado como também escrevem tratados de anatomia e fisiologia divinas. E proclamam que o pássaro só pode ser encontrado dentro das suas gaiolas. Religiões: uma enorme feira onde se vendem pássaros engaiolados de todos os tipos.
Os hereges que as religiões queimam e matam não são assassinos, terroristas, ladrões, adúlteros, pedófilos, corruptos. Esses são pecados suaves que podem ser curados pelo perdão e pelos sacramentos. Os hereges, ao contrário, são aqueles que odeiam as gaiolas e abrem as suas portas para que o Pássaro Encantado voe livre. Esse pecado, abrir as portas das gaiolas para que o Pássaro voe livre, não tem perdão. O seu destino é a fogueira. Palavra do Grande Inquisidor. Rubem Alves.