Como é difícil despedir-se! Sempre
que acabo de ler um livro, tenho essa sensação de despedida. Os
contextos, os personagens, as histórias, tudo tão familiar... tanta
cumplicidade, choros, risos. Compartilhar emoções criam vínculos
tão fortes! Mas enfim, é a arte imitando a vida e vice-versa. Se na
vida temos que passar página e tantas vezes fechar um “livro”
para começar a escrever outro, com novas histórias, novos contextos
e novos personagens, com certeza é menos doloroso fazer isso com a
ficção. O livro é bastante interessante, está ambientado em três
épocas distintas, com três protagonistas mulheres, e um conflito em
cumum. Uma delas é uma autora de conto de fadas. E no livro são
relatados alguns dos contos e como acontece com muitos poetas,
compositores e autores, muitos dos contos são autobiográficos, o
que vai dando pistas do desenrrolar da historia. Apesar de serem um
pouco artificiosos, os contos de fadas resgatam alguns valores de uma
maneira um pouco às avessas dos contos tradicionais. Portanto, deixo
aquí alguns aperitivos do livro para podermos pensar: “... é bom
poder ver sem ser vista. Ser observada é perigoso, porque
determinados escrutinios é uma forma de roubo.” E uma das minhas
partes prediletas do livro é quando Eliza contruía seu mundo e
castelos, e ela era a princesa que esperava pelo principe, sua mãe
lhe dizia que ela não devia esperar que alguém viesse resgatá-la.
Uma mulher que espera que a resgatem, nunca salvará sí mesma.
Porque ainda que você tenha os meios necessários, descubrirá que
te falta valor. Devemos encontrar nosso valor, aprender a
resgatar-nos e não esperar ou depender de ninguém! Concordam? Bem,
fica aí minha dica de livro. Só não sei se está editado em
português. “El jardín olvidado” de Kate Morton. É um
best-seller, vale a pena ler! Bsitos!
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
Palavras do Grande Inquisidor.
Mais um textinho pra alimentar a alma... mtos bsitos desde o outro lado do "corguim"!
De
tudo o que Dostoievski escreveu em Os Irmãos Karamazovi o que
mais me impressionou foi o incidente do “Grande Inquisidor”. É
assim. Jesus havia voltado à terra e andava incógnito entre as
pessoas. Todos o reconheciam e sentiam o seu poder mas ninguém se
atrevia a pronunciar o seu nome. Não era necessário. De longe o
Grande Inquisidor o observa no meio da multidão e ordena que ele
seja preso e trazido à sua presença. Então, diante do prisioneiro
silencioso, ele profere a sua acusação.
“Não
há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de
consciência, mas também não há nada mais terrível. Em lugar de
pacificar a consciência humana de uma vez por todas mediante sólidos
princípios, Tu lhe ofereceste o que há de mais estranho, de mais
enigmático, de mais indeterminado, tudo o que ultrapassava as forças
humanas: a liberdade. Agiste, pois, como se não amasses os homens...
Em vez de Te apoderares da liberdade humana, Tu a multiplicaste, e
assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, para toda a
eternidade...”
O
Grande Inquisidor estava certo. Ele conhecia o coração dos homens.
Os homens dizem amar a liberdade mas, de posse dela, são tomados por
um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os
homens são pássaros que amam o vôo mas têm medo dos abismos. Por
isso abandonam o vôo e se trancam em gaiolas.
Não
me recordo o nome do autor. Mas não importa. Textos valem por eles
mesmos e não pelos nomes daqueles que os escreveram. Eu o reconto
com as minhas palavras.
"Era um bando de patos selvagens que voavam nas alturas. Lá em cima era o vento, o frio, os horizontes sem fim, as madrugadas e os poentes coloridos. Tudo tão bonito! Mas era uma belezxa que doía. O cansaço do bater das asas, o não ter casa fixa, o estar sempre voando e as espingardas dos caçadores... Foi então que um dos patos selvagens, olhando lá das alturas para a terra aqui em baixo viu um bando de patos domésticos. Eram muitos. Estavam tranqüilamente deitados à sombra de uma árvore. Não precisavam voar. Não haviam caçadores. Não precisavam buscar o que comer: o seu dono lhes dava milho diariamente. E o pato selvagem invejou os patos domésticos e resolveu juntar-se a eles. Disse aos seus companheiros, baixou seu vôo e passou a viver a vida mansa que pedira a Deus. E assim viveu por muitos anos. Até que... Até que, num ano como os outros chegou de novo o tempo da migração dos patos. Eles pssavam nas alturas, no fundo do azul do céu, grasnando, um grupo após o outro. Aquelas visões dos patos em vôo, as memórias de alturas, aqueles grasnados de outros tempos começaram a mexer com algum lugar esquecido dentro do pato domesticado, o lugar chamado saudade. Uma nostalgia pela vida selvagem, pelas belezas que só se vêem nas alturas, pelo fascínio do perigo... Até que não foi mais possível agüentar a saudade. Resolveu voltar a ser o pato selvagem que fora. Abriu suas asas, bateu-as para voar, como outrora... mas não voou. Caiu. Esborrachou-se no chão. Estava gorde demais. E assim passou o resto de sua vida: em segurança, protegido pelas cercas e triste de não poder voar..."
Acho
que Fernando Pessoa se sentia um pouco como o pato. Pelo menos é o
que sinto ao ler esse poema:
“Ah,
quanta vez, na hora suave
Em
que me esqueço,
Vejo
passar um vôo de ave
E
me entristeço!
Porque
é ligeiro, leve, certo
No
ar de amavio?
Porque
vai sob o céu aberto
Sem
um desvio?
Porque
ter asas simboliza
A
liberdade
Que
a vida nega e a alma precisa?
Sei
que me invade
Um
horror de me ter que cobre
Como
uma cheia
Meu
coração, e entorna sobre
Minh’alma
alheia
Um
desejo, não de ser ave,
Mas
de poder
Ter
não sei quê do vôo suave
Dentro
do meu ser.”
Somos
assim. Sonhamos o vôo mas tememos as alturas. Para voar é preciso
ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio
que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência
de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso
trocamos o vôo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas
moram.
É
um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles
não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se
as portas da gaiola estivessem abertas. A verdade é o oposto. Não
há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas ao vôo. São eles
mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam
“Prisioneiro, dize-me, quem foi que fez essa inquebrável
corrente que te prende?”, perguntava Tagore. “Fui eu”,
disse o prisioneiro, “fui eu que forjei com cuidado, esta
corrente...”
Deus
dá a nostalgia pelo vôo.
As
religiões constroem gaiolas.
As
religiões são instituições que pretendem haver colocado numa
gaiola o Pássaro Encantado. E não percebem que o pássaro que têm
preso nas suas gaiolas de palavras é um pássaro empalhado. Era por
isso que, no Antigo Testamento, era proibido falar o nome de Deus.
Hoje, ao contrário, os religiosos não só falam o nome sagrado como
também escrevem tratados de anatomia e fisiologia divinas. E
proclamam que o pássaro só pode ser encontrado dentro das suas
gaiolas. Religiões: uma enorme feira onde se vendem pássaros
engaiolados de todos os tipos.
Os
hereges que as religiões queimam e matam não são assassinos,
terroristas, ladrões, adúlteros, pedófilos, corruptos. Esses são
pecados suaves que podem ser curados pelo perdão e pelos
sacramentos. Os hereges, ao contrário, são aqueles que odeiam as
gaiolas e abrem as suas portas para que o Pássaro Encantado voe
livre. Esse pecado, abrir as portas das gaiolas para que o Pássaro
voe livre, não tem perdão. O seu destino é a fogueira. Palavra do
Grande Inquisidor. Rubem Alves.
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